domingo, fevereiro 3

Onde começa a FOTOGRAFIA?

Onde começa uma fotografia? Começa com um click? Ou culmina nele?
À primeira vista, esta pergunta soa um pouco estranha... Haverão razões para esta dúvida? Façamos uma viagem a um passado recente e finjamos que o digital ainda não existe, para que assim seja mais fácil analizar os excertos que reproduzirei a seguir, e que foram escritos precisamente nessa condição. Vejamos o que nos diz Philippe Dubois: "Com a fotografia, já não é possível pensar a imagem fora da sua constituição, fora do acto que a faz ser como tal, entendendo-se (...) que esta 'génese' tanto pode ser um acto de produção propriamente dito (tirar a fotografia) como um acto de recepção ou difusão (...)". E ainda: "Por mais que se diga que uma fotografia acaba por encontrar o seu destino nela mesma, que a sua carga simbólica exerce o seu peso referencial, que os seus valores plásticos, os seus efeitos de composição ou de textura fazem dela uma composição auto-suficiente, etc., não se poderá nunca esquecer que esta autonomia e esta plenitude de significações só se instituem vindo vestir, transformar, preencher passo a passo, como efeitos, uma singularidade existencial primeira, que, num momento e num lugar determinados, veio inscrever-se sobre um papel qualificado justamente de 'sensível' ".

O que se pode concluir destas palavras?
Numa parte do seu brilhante ensaio, o referido autor diz-nos que a " 'génese' da fotografia tanto pode ser um acto de produção propriamente dito (tirar a fotografia) como um acto de recepção ou difusão". Noutra parte, fala-nos de "uma singularidade existencial primeira".
Entende-se aqui, que a singularidade existencial primeira, será o momento em que a fotografia é impressa em papel fotográfico... Mas aqui terá de se ter em atenção, que o dito papel fotográfico, poderá estar dentro da máquina fotográfica, por isso, não é aqui eliminado o momento do click, como à primeira vista poderá parecer... Mas... são eliminados todos os outros! Ou seja: onde é que está aqui a 'génese' da recepção e da difusão?
Não me parece uma pergunta fácil de responder... Analisando as citações aqui reproduzidas, parece-me primeiro, que o termo "começa" está mal aplicado, uma vez que a 'génese' da fotografia, segundo Philippe Dubois, é uma génese alargada, sem começo definido ou definível, num determinado ponto e/ou momento. Mas por outro lado, afirma que ela começa com um click... Perante tal aparente contradição, (digo aparente porque, quanto a mim não o é de facto, como explicarei) lanço ainda mais uma acha para a fogueira: para mim, a fotografia começa antes do click, não culmina de modo nenhum nele e, por vezes, o dito click pode até ser dispensado! E dou aqui dois exemplos de algumas implicações práticas do que digo...

Primeiro exemplo: um fotógrafo desloca-se a uma sala de espectáculos num dia de representação de uma peça que desconhece por completo. Inicia-se um autêntico festival de luz, cor e acção. O fotógrafo, que é um bom fotógrafo, usa todo o seu instinto (e muitos rolos) para fazer os clicks certos na hora certa. Quando acaba o espectáculo, é autor de uma esplêndida colecção de fotografias, todas elas de grande valor dramático e possuidoras de uma iluminação fora de série. Além disso, o conjunto das fotografias conta a história da peça, daí o seu valor como obra. Pergunto: quem foi o autor daquela obra? O fotógrafo? Sim, ele fotografou...
Mas foi ele que contou aquela história? E se o espectáculo tivesse sido cancelado à ultima da hora? Se tivesse sido adiado e no outro dia, fosse outro o fotógrafo destacado para o serviço? As fotografias não seriam as mesmas? Talvez não... Mas isso seria o suficiente para definir a autoria? Ou antes, terá de se considerar que a autoria foi partilhada entre o fotógrafo e todos os criadores do espectáculo?

A história seria a mesma... E nenhum dos dois hipotéticos fotógrafos conhecia sequer a peça... Não tiveram qualquer influência sobre o seu decorrer... E se ela não existisse, não a fotografariam... Então, onde começaram aquelas fotografias? Nos clicks dos fotógrafos? Ou na montagem e realização do espectáculo?

Segundo exemplo: uma das nossas mais conceituadas artistas plásticas, a Helena Almeida, usa a fotografia como modo de expressão. Independentemente de se considerar a Helena Almeida fotógrafa ou não, o facto é que é unânime considerar a referida artista, autora das suas obras... que são, na sua maioria, fotografias! Mas... quem as tira, (quem faz o click) não é ela, e sim o marido... Então como é isso?...
A Helena Almeida, estuda o conceito, monta o cenário, estuda e executa a performance. Em resumo: constrói e produz o espectáculo que irá ser fotografado. Por isso, a autora é ela.Mas... E a história da peça de teatro? Afinal quem será o autor daquelas fotos? Mais uma vez, as fotos começaram onde?
Ou seja: o click que define a fotografia, não existe. O que existe, é antes uma sucessão de momentos e acções, que em determinado momento ficam gravados, (ou fica gravado o resultado delas) mas para que essa gravação seja possível, já teriam de existir. E depois, deixariam de existir, caso por qualquer razão, a fotografia não resultasse tecnicamente (se não houvesse rolo, por exemplo), porque o que manteria essa série de acontecimentos (gravada em apenas um momento) existente, seria precisamente esse registo e a divulgação/difusão e recepção do mesmo (como afirma Philippe Dubois). Para que se fotografe um espectáculo, uma pessoa a atravessar a estrada ou um pôr do sol, é condição necessária que qualquer desses momentos existam. Ou melhor, que tenham existência latente. Depois, para que continuem a existir e não se diluam no devir de acontecimentos que se seguirão, terão de ser invariavelmente registados e divulgados. Tudo isso é a fotografia. E o click é só um entre os muitos momentos que a fazem.E se não existir? Continua a haver fotografia? É um desafio...
Para o abordarmos, teria-mo-nos de socorrer de uma outra definição de fotografia que diz essencialmente isto: “(...)pela sua própria natureza técnica, pelo seu procedimento mecânico, (...) permite fazer aparecer uma imagem de maneira 'automática' 'objectiva' quase 'natural' (segundo as leis da óptica e da química) sem que intervenha directamente a mão do artista. Esta seria a definição clássica de fotografia, ainda segundo Philippe Dubois.
Mas ser clássica, não é automaticamente sinónimo de ultrapassada: se substituirmos no parêntesis as leis da química pelas da física, de modo a contemplar a técnica digital, que permite o registo da imagem através de fanómenos físicos, concretamente da electricidade, continuaremos a ter uma boa definição técnica de fotografia. Mas claro, ressalvo que se trata apenas uma definição técnica, que pouco ou quase nada diz das características do medium em questão.

Fantasiemos agora um pouco, e imaginemos que haveria um qualquer processo de registar sob forma de imagem, num qualquer aparelho ou superfície sensível, as nossas memórias. Afinal não serão muitas delas memórias visuais? E Não terão sido registadas através de processos ópticos e físico-químicos e sem intervenção directa da mão do artista? Tal como acontece tecnicamente em relação à verdadeira fotografia? Então onde está a diferença? Pelo menos do ponto de vista técnico, não parece haver qualquer diferença, e no ponto de vista de uma definição mais abrangente, apenas peca por não permitir o acto de “difusão” dessa mesma imagem. Porque ela não poder ser partilhada, pelo menos dessa forma. Mas será com certeza, uma questão de tempo...
No entanto, se mantivermos intactas as condições que provocaram uma determinada memória (por exemplo a repetição da referida peça de teatro), poderemos continuar a afirmar que não existe fotografia uma vez que não se reuniram as condições de “difusão e recepção”?
Todo este desconstruir de definições serve, quanto a mim, apenas um propósito:
o de compreendermos que não há um espartilho, uma casa, um lugar onde possamos arrumar a fotografia enquanto actividade humana, e dizer simplesmente: “a fotografia é um resultado destas e destas premissas, que conduz a estes e àqueles resultados, através destes e de outros processos técnicos”. Tal definição, por mais que se tente, acabará sempre por nos fugir.

Pensando nisto tudo, uma vez lembrei-me de fazer uma instalação para uma exposição minha, a que intitulei "Auto-retrato (Fotografia ainda por realizar)". A referida fotografia, agora já fotografada (ou talvez não...) juntamente com uma explicação, pode ser vista AQUI.
Além do simbolismo que lhe atribuí, uma das coisas que tentei questionar com aquela instalação, foi precisamente o momento fotográfico, que, quanto a mim, não existe de forma única, e independente de todos os outros que dizem respeito à vida. Porque a fotografia é simplesmente vida, e tal como ela, é por definição indefinivel.

João Paulo Barrinha

PS: este texto resultou da revisão e recomposição de um texto originalmente publicado aqui: http://fotografia.5.forumer.com/index.php?showtopic=47233
As citações de Pilippe Dubois, foram retiradas do livro O ACTO FOTOGRÁFICO, Colecção Comunicação e Linguagens, da Editora Veja.

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