sexta-feira, fevereiro 15

IMAGEM

Excertos do livro de Vilém Flusser, intitulado Filosofia da Caixa Preta.

Nota do editor da obra: “Filosofia da Caixa Preta propõe nova abordagem de mídia fotográfica. Vilém Flusser sugere que uma análise dos aspectos estéticos, científicos e políticos da fotografia pode ser a chave para uma pesquisa sobre a actual crise cultural e as novas formas existênciais e sociais que, a partir dela, estão se cristalizando. O autor demonstra que a reviravolta da cultura de textos em cultura de imagens, bem como da sociedade industrial à pós-industrial ocorrem de mãos dadas.
Para Flusser, 'a intensão que move este ensaio é contribuir para um diálogo filosófico sobre o aparelho em função do qual vive a actualidade, tomando por pretexto o tema fotografia' “.



“Imagens são superfícies que pretendem representar algo. Na maioria dos casos, algo que se encontra lá fora no espaço e no tempo. As imagens são, portanto, resultado do esforçao de se abstrair duas das quatro dimensões espácio-temporais, para que se conservem apenas as dimensões do plano. Devem sua origem à capacidade de abstação específica que podemos chamar de imaginação. No entanto, a imaginação tem dois aspectos: se de um lado, permite abstrair duas dimensões do fenômenos, de outro permite reconstruir as duas dimensões abstraidas da imagem. Em outros termos: imaginação é a capacidade de codificar fenômenos de quatro dimensões em simbolos planos e decodificar as mensagens assim codificadas. Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens.
(...)
Ao vaguear pela superfície, o olhar vai estabelecendo relações temporais entre os elementos da imagem: um elemento é visto após o outro. O vaguear do olhar é circular: tende a voltar para contemplar elementos já vistos. Assim, o “antes” se torna “depois”, e o “depois” se torna “antes”. O tempo projetado pelo olhar sobre a imagem é o eterno retorno. O olhar diacroniza a sincronicidade imagistica por ciclos.
Ao circular pela superficie, o olhar tende a voltar sempre para elementos preferenciais. Tais elementos passam a ser centrais, portadores preferenciais do significado. Deste modo, o olhar vai estabelecendo relações significativas. O tempo que circula e estabelece relações significativas é muito específico: tempo de magia. Tempo diferente do linear, o qual estabelece relações causais entre eventos. No tempo linear, o nascer do sol é a causa do canto do galo; no circular, o canto do galo dá significado ao nascer do sol, e este dá significado ao canto do galo. Em outros termos: no tempo da magia, um elemento explica o outro, e este explica o primeiro. O significado das imagens é o contexto mágico das relações reversíveis.
O carácter mágico das imagens é essencial para a compreensão das suas mensagens. Imagens são códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas. Não que as imagens eternizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder mágico, inerente à estruturação plana da imagem, domina a dialética interna da imagem, própria a toda a mediação, e nela se manifesta de forma incomparável.
Imagens são mediações entre homem e mundo. O homem “existe”, isto é, o mundo não lhe é acessível imediatemente. Imagens têm o propósito de representar o mundo, mas passam a ser biombos. O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função das imagens. Não mais decifra as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como conjunto de cenas. Tal inversão da função das imagens é idolatria. Para o idólatra - o homem que vive magicamente - , a realidade reflecte imagens.
(...)
A luta da escrita contra a imagem, da consciência histórica contra a consciência mágica carascteriza a História toda. E terá consequências imprevistas. A escrita se funda sobre a nova capacidade de codificar planos em retas e abstrair todas as dimensões, com exceção de uma: a da conceitualização, que permite codificar textos e decifrá-los. Isto mostra que o pensamento conceitual é mais abstrato que o pensamento imaginativo, pois preserva apenas uma das dimensões do espaço-tempo. Ao inventar a escrita, o homem se afastou ainda mais do mundo concreto quando, efetivamente, pretendia dele se aproximar. A escrita surge de um passo para aquém das imagens e não de um passo em direção ao mundo. Os conceitos não significam fenómenos, significam idéias. Decifrar textos é descobrir as imagens significadas pelos conceitos. A função dos textos é explicar imagens, a dos conceitos é analizar cenas. Em outros termos: a escrita é meta-código da imagem.
A relação texto-imagem é fundamental para a comprensão da história do ocidente.(...) À medida que o cristianismo vai combatendo o paganismo, ele próprio vai absorvendo imagens e se paganizando; à medida que a ciência vai combatendo ideologias, vai ela própria absorvendo imagens e se ideologizando. (...) Graças a tal dialética, imaginação e conceituação que mutuamente se negam, vão mutuamente se reforçando. As imagens se tornam cada vez mais conceituais e os textos, cada vez mais imaginativos. Atualmente o maior poder conceitual reside em certas imagens, e o maior poder imaginativo, em determinados textos da ciência exata. Deste modo, a hierarquia dos códigos vai se perturbando: embora os textos sejam metacódigo de imagens, determinadas imagens passam a ser metacódigos de textos. (...)”




Nota do editor deste Blog: a minha investigação particular e um pouco “anárquica” como já a classifiquei antes (no sentido de ser o mais possível despreocupada relativamente a métodos racionalizáveis) levou-me desta vez ao encontro de obras de Vilém Flusser, um genial teórico da imagem que desconhecia por completo.
Do desconhecimento à surpresa e daí à admiração total do seu pensamento, foi um passo. A escolha destas passagens serve por enquanto a minha investigação particular, mas nem ela se esgota nestas passagens, nem a completa obra de Vilém Flusser ficaria entendida apenas com esta leitura. Como tal, é minha intenção vir ainda a publicar neste Blog, outras passagens desta obra, ou outros textos do mesmo autor, como por exemplo o texto em Inglês (The Gesture of Photographing) já publicado e para o qual o link se encontra ao fundo desta mensagem.

Nota: a transcrição dos excertos acima reproduzidos, procurou respeitar integralmente a ortografia brasileira em que a referida obra vem escrita e à excepção dos cortes devidamente assinalados, qualquer divergência que possa haver entre estas transcrições e o texto original, dever-se-á a gralha involuntária.
Os excertos aqui apresentados, foram obtidos com a devida autorização dos editores da obra, cujo link (onde se poderá igualmente encontrar o texto integral) se encontra no fundo desta mensagem. Qualquer cópia que possa ser feita a partir deste excerto, terá de ser igualmente autorizada pelos mesmos editores, não podendo o editor deste Blog, assumir a responsabilidade de tal situação.
Por me ter dado a conhecer Vilém Flusser, um agradecimento especial a Jorge Valente, participante do FORUM DE FOTOGRAFIA.NET


Outros textos de Vilém Flusser neste Blog:

1- ENSAIO SOBRE A FOTOGRAFIA
2- THE GESTURE OF PHOTOGRAPHING
3- EXILE AND CREATIVITY

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TEXTOS DE VILÉM FLUSSER NA NET

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