quinta-feira, fevereiro 21

Vilém Flusser - Ensaio sobre a fotografia

"... De modo geral, toda a gente possui um aparelho fotográfico e fotografa, assim como, praticamente, toda a gente está alfabetizada e produz textos. Quem sabe escrever, sabe ler; logo, quem sabe fotografar sabe decifrar fotografias. Engano. Para captarmos a razão pela qual quem fotografa pode ser analfabeto fotográfico, é preciso considerar a democratização do acto fotográfico. Tal consideração poderá contribuir, de passagem, à nossa compreensão da democracia no seu sentido mais amplo.

O aparelho fotográfico é comprado por quem foi programado para tal. Os "aparelhos" de publicadade programam essa compra. O aparelho fotográfico assim comprado será de «último modelo»: menor, mais barato, mais automático e eficiente que o anterior. O aparelho deve o aperfeiçoamento constante dos modelos ao feed-back dos que fotografam. O aparelho da indústria fotográfica vai assim aprendendo, pelo comportamento dos que fotografam, como programar cada vez melhor os aparelhos fotográficos que produzirá. Neste sentido, os compradores de aparelhos fotográficos são «funcionários» do aparelho da indústria fotográfica.

Uma vez adquirido, o aparelho fotográfico vai revelar-se um brinquedo curioso. Embora repouse sobre teorias científicas complexas e sobre técnicas sofisticadas, é muito fácil manipulá-lo. O aparelho propõe um jogo estruturalmente complexo, mas funcionalmente simples. Um jogo oposto ao xadrez, que é estruturalmente simples, mas funcionalmente complexo: é fácil apreender as suas regras, mas difícil jogá-lo bem. Quem possui aparelho fotográfico de «último modelo», pode fotografar «bem» sem saber o que se passa no interior do aparelho. «Caixa negra».

O aparelho é um brinquedo sedento por fazer sempre mais fotografias. Exige do seu possuidor (quem por ele está possesso) que aperte constantemente o gatilho. é um aparelho-arma. Fotografar pode converter-se numa mania, o que evoca o uso de drogas. Na curva desse jogo maníaco, pode surgir um ponto a partir do qual o homem-desprovido-de-aparelho se sente cego. Já não sabe olhar, a não ser através do aparelho. Deste modo, não está face ao aparelho (como o artesão está frente ao instrumento), nem está a rodar em torno do aparelho (como o proletário em redor da máquina). Está dentro do aparelho, engolido pela sua gula. Passa a ser o prolongamento automático do seu gatilho. Fotografa automaticamente.

A mania fotográfica resulta numa torrente de fotografias. Uma torrente-memória que a fixa. Eterniza a automaticidade insconsciente de quem fotografa. Quem contemplar um álbum de um foógrafo amador, estará a ver a memória de uma aparelho, não a de um homem. Uma viagem a Itália, documentada fotograficamente, não regista as vivências, os conhecimentos, os valores do viajante. regista os lugares onde o aparelho o seduziu para apertar o gatilho. Os álbuns são memórias «privadas» apenas no sentido de serem memórias de aparelhos. Quanto mais eficientes se tornarem os modelos dos aparelhos, tanto melhor atestarão os álbuns, a vitória do aparelho sobre o homem. É a «privacidade» no sentido pós-industrial do termo.

Quem escreve precisa de dominar as regras da gramática e da ortografia. O fotógrafo amador apenas obedece a «modos de usar», cada vez mais simples, inscritos no lado externo do aparelho. democracia é isto. Deste modo, quem fotografa como amador não pode decifrar fotografias. A sua «praxis» impede-o de fazê-lo, pois o fotógrafo amador, crê que o fotografar é o gesto automático graças ao qual o mundo vai aparecendo. Impõe-se uma conclusão paradoxal: quanto mais gente houver a fotografar, tanto mais difícil se tornará o deciframento de fotografias, já que todos acreditam saber fazê-las..."


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1- IMAGEM
2- EXILE AND CREATIVITY
3- THE GESTURE OF PHOTOGRAPHING

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