sexta-feira, dezembro 26

Ai o Natal...

Em época Natalícia, época esta onde normalmente se come muito, bebe-se mais e se gasta igualmente muito dinheiro (além de, por vezes, se morrer na estrada) também há quem faça algo de diferente... Há quem se preocupe com a humanidade e com o ambiente... Ou pelo menos, que pense e fale nesses assuntos...

Esse é o meu caso...

Nesse sentido, entre prendas que recebi, que ofereci e que comprei para mim mesmo, destacaria três, essencialmente pelas questões ligadas a uma certa ideia de humanismo, mas também por questões ligadas à fotografia e à literatura.
Refiro-me em concreto, a uma biografia de MOHAMAD YUNUS, o banqueiro dos pobres, e a um CD de JAN JARVLEPP, intitulado "Garbage Concerto - A concerto for Recycled Garbage and Orquestra" (que ofereci) assim como a um livro ("Todos os Nomes") de JOSÉ SARAMAGO (que me ofereceram) e finalmente, ao grande (literalmente) livro de fotografia de SEBASTIÃO SALGADO, "África" (que comprei para mim mesmo).

Não menosprezando nenhuma das outras prendas referidas (nem mesmo as não referidas, como por exemplo o perfume bem cheiroso ou o cinto, para apertar ainda mais) passarei directamente a SEBASTIÃO SALGADO e ao "África"(*).

Há quem não goste do trabalho do SEBASTIÃO SALGADO... Sinceramente, não compreendo porquê. SEBASTIÃO SALGADO, arrisco-me a dizer sem muito medo de estar a errar, é talvez o mais importante repórter fotográfico vivo. A sua obra, ainda em elaboração, assume-se já com uma dimensão talvez só comparável à da já encerrada obra de HENRI CARTIER-BRESSON.
Dizem alguns dos seus críticos, que SEBASTIÃO SALGADO não é isento, que segue uma ideologia... Que ganha muito dinheiro fotografando gente que não terá sequer o que comer...
Enfim, tudo isso verdade, mas onde poderá ser criticável?
Quem não segue uma ideologia? Mesmo aqueles que afirmam não seguir nenhuma, seguem precisamente essa... Por outro lado, manifestar uma crença religiosa, ideologia, e/ou opinião pessoal sobre um determinado assunto, sejam eles/elas quais forem, desde que feito de forma pacífica, honesta e respeitadora, não poderá ser nunca um acto criticável. É antes, um acto de liberdade!
Quanto a ganhar dinheiro: desde quando isso foi um acto condenável, desde que fruto de trabalho? E SEBASTIÃO SALGADO trabalha muito, e muito bem.
Justiça seja feita no entanto... Mesmo a maioria dos críticos de Salgado (se não mesmo todos) concorda que se está perante um fotógrafo genial.

E talvez (contra censo) esteja nessa rara genialidade, a única crítica que se poderá fazer ao trabalho deste autor. Quando vemos uma imagem de Salgado, vemos primeiro, a excelência artística do enquadramento, da luz, do contraste... Vemos a força daquela imagem, o que ela nos transmite, e exclamamos: "grande imagem! Genial!"... Mas no meio de tanta aclamação, por vezes (muitas) esquecemos de ver quem e/ou o que, está verdadeiramente retratado ali. Que realidade o autor nos procura mostrar.
Acontece-nos muitas vezes essa situação, porque SEBASTIÃO SALGADO tem um olhar "doce". Ele embeleza o que não é belo... E isso torna adulterada a mensagem... Não é fácil deixarmo-nos despertar para a crueza das realidades que a sua objectiva capta. No entanto, essa falha não pertence ao seu trabalho ou génio... Essa falha é nossa.

Posto isto, vamos directamente a "África": este é um livro editado pela TASHEN, a conhecida editora especializada em edições de arte.
Que mais poderei dizer sobre este excelentemente bem impresso livro (em formato de álbum) de 335 páginas? Que não é nada caro, mesmo para um comum livro de fotografia com aquelas características, muito mais se compararmos com outros livros do mesmo autor... Apenas 55 €...
Além disso, apetecia-me fazer como MIA COUTO, escritor Moçambicano, que escreveu algumas palavras que acompanham o referido livro, e não dizer mais nada, a não ser: comprem e vejam.

No entanto, mesmo não tendo eu a mesma capacidade para "sonhar" que tem MIA COUTO , procurarei dizer algo do modo como este trabalho que reúne imagens obtidas ao longo de toda a carreira do fotógrafo e que se poderão ver incluídas em outros ensaios como por exemplo "Trabalho" ou "Exodos", me impressionou. Mas primeiro que tudo, algumas palavras de MIA COUTO...

"(...) Quando SEBASTIÃO SALGADO me pediu para escrever algo a propósito destas fotografias aceitei com entusiasmo adolescente. Eu já conhecia o brilho da obra do fotógrafo brasileiro e em minha casa os seus álbuns eram um motivo de reincidente viagem. Estas fotos viajaram por correio para o meu país e, duas semanas depois, já com as imagens nas mãos, o entusiasmo se converteu em pânico. A beleza das fotografias era tal e tanta que tudo o mais parecia ser pleonástico. Não cabendo palavra nestas imagens, eu não podia senão desistir. Escrevi mesmo uma carta de resposta a Salgado explicando as razões do meu humilde silêncio. Adormeci, contudo, com os rostos passeando em meus sonhos, fui visitado por espíritos que habitavam as fotos. Havia o menino moribundo alimentado a soro. Um fio suspenso segurava a vida desse menino, um delicado cordão umbilical ligando a um ventre celestial. Os olhos da mãe não tinham luz sequer para uma lágrima. (...) No meu sonho, insistia ainda a imagem dessa inventada rainha de um povo nómada e pastor. O porte e o olhar de nobreza, confirmados pela submissão de uma criança. Como as rainhas verdadeiras ela olhava para nenhum lado, contemplando o mundo que apenas ela mesma ia criando. O pequeno pé do menino denunciava: nas costas uma vida, no ventre a promessa de uma outra vida". (...) Para afastar esses fantasmas, me ergui em plena insónia e fiz recurso da poesia. De madrugada, uma espécie de diálogo tinha nascido com as imagens. Afinal, existia um espaço marginal, uma periferia dos sentidos sugerida pela arte de Salgado. Um mesmo labor poético, encontro de percepções sonâmbulas: ali se cruzam olhares, casaram sensibilidades. (...)"

Tal como MIA COUTO, também eu terei de recorrer à poesia (no caso, à poesia possível) único denominador comum entre a linguagem escrita e a linguagem das imagens, para poder dar uma pequena ideia de como um livro desta envergadura documental, pode ser, por um lado, uma obra-prima artística, e por outro, um (mais um) forte alerta para que, finalmente vejamos o modo como África se está a transformar num continente "civilizado".

Há muitos anos, estive em África. Vivi lá alguns (talvez os mais importantes, pelo menos segundo as minhas recordações) anos da minha infância. Lembro-me ainda perfeitamente, de ir, com os meus pais, para o rio, nos arredores da cidade onde vivia (Huambo- Angola) porque o mar ficava a cerca de 300 Km pelo menos... Lembro-me de me dizerem que era perigoso, que não me poderia afastar muito, que haviam "Turras" no mato...

Lembro-me de me perguntar a mim mesmo, e na minha ingenuidade infantil, o que seria isso dos "Turras"... E lembro-me de ter imaginado, que seriam homens maus, mas que teriam a palavra "Turra", escrita na testa.
Uns anos depois, apenas alguns poucos, apercebi-me que, afinal, os "Turras" não tinham nada escrito na testa... Que nem todos eles eram homens, haviam também algumas crianças, que ainda por cima, de metralhadora na mão, olhavam com muita curiosidade e alguma cobiça (imaginei eu) os meus brinquedos...
Lembro-me também, que nem todos eles eram maus... E que a maioria, apenas queria vingar/recuperar o que outrora tinha sido deles. Como se isso fosse possível...

Desses tempos, que duraram apenas cerca de um ano já que regressei a Portugal em 1976, recordo-me, entre outros episódios igualmente preocupantes, um que se passou mais directamente comigo...
No meu bairro, um bairro de vivendas quase exclusivamente ocupado por portugueses, já poucas casas haviam em que lá vivesse gente... Nas outras, poderíamos encontrar as chaves nas portas, ou simplesmente abertas...
Eu, e um grupo de amigos (com os meus irmãos incluídos) gostávamos de fazer visitas a essas casas, para "recuperar" de lá tudo o que pudéssemos... O que "recuperávamos" normalmente eram livros de banda desenhada... Mas numa arrecadação, certa vez, encontrei uma lata de tinta vermelha e uma trincha... Os livros de banda desenhada, depois de devidamente lidos, iam directos para o alfarrabista que nos pagava umas moedinhas, uma das fontes de financiamento do nosso clube de investigação privado (que nunca resolveu nenhum crime, nem tampouco viu nenhum para resolver) inspirado pelos então famosos livros dos 5 e dos 7, que as pessoas da minha geração tão bem conhecem...

A lata de tinta... Serviu para pintar um muro...
Estava eu então entretido e concentrado nessa tarefa, quando, sem que me pudesse aperceber, se aproxima um "Turra". Esse devia ter pelo menos, uns três metros de altura... Pelo menos foi o que me pareceu...
Aponta-me o cano da G3 directamente à cabeça, e pergunta-me numa voz firme e grossa: "O que estás a fazer puto?"
"Estou a pintar 'VIVA A UNITA'", respondi eu com a voz mais doce que pude, e com aquele ar de quem tinha sido apanhado em flagrante a fazer um grande disparate.
"Então fazes bem!" Respondeu ele. Baixou a metralhadora, deu-me uma palmadinha nas costas, riu-se, e foi-se embora.
Eu não tive coragem para continuar, todo eu tremia... (Tinha 9 anos na época). Assim que pude, corri para casa, e só saí de lá, no dia seguinte. Não corri perigo, sei-o agora... A não ser, talvez, que estivesse a escrever "VIVA O MPLA"... Mas somente porque, na cidade onde eu vivia, era a UNITA que dominava o terreno. Como tal, era praticamente o único movimento que eu conhecia... E o referido (e simpático) "Turra", apenas não sabia ler... Só isso...

Em tempo de guerra contra o Português, e onde a minha família vivia, nós crianças podíamos sair à rua sem grande perigo. Apenas teríamos que ter alguns cuidados com os brinquedos e com os "disparates" que fizéssemos... Claro que, eu sei bem, essa segurança não era tão "real" como a que experimentamos hoje aqui em Portugal. E da qual nos estamos sempre a queixar... Do mesmo modo, noutras cidades de Angola, a situação não foi tão "pacífica"... Para muitos Portugueses (demais) que viviam por exemplo em Luanda e noutras localidades, a situação que se seguiu ao 25 de Abril em Angola, foi perfeita e totalmente dramática. Não porque dominassem lá outros movimentos que não a UNITA, mas essencialmente, porque não dominava lá nenhum...

Estas são apenas algumas poucas das recordações que trouxe de Angola, país ao qual até agora, não regressei... Mas o que terá isto a haver com o livro "África"? Tudo.

Em primeiro lugar, encontram-se no referido livro, imagens obtidas em 1975-1976, em Angola. Logo depois de SEBASTIÃO SALGADO ter fotografado o 25 de Abril em Portugal. O visionamento dessas fotografias (que segundo a brilhante propaganda de uma conhecida empresa de fotografia, servem "para mais tarde recordar") despertou logo em mim, essas vivências...

As imagens do livro África, levaram-me a viajar novamente para África... Para uma África, que eu já conhecia numa pequena parte, mas que, essencialmente, permanece desconhecida e enigmática para mim...
No entanto, a à medida que vou desfolhando as páginas, vou vendo, ora retratos de guerra, ora de pobreza extrema, de fome... Ora paisagens de sonho, momentos da vida natural e populações verdadeiramente felizes... E sinto novamente o calor... O calor de um continente que tem tanto de uma identidade muito própria, rica, diversa e contraditória, como de falta de identidade provocada por anos e anos de "civilização"...

Neste livro podemos ver as zonas mais ocidentalizadas (aquelas que chamaríamos mais civilizadas) e as mais "primitivas". Vemos as faces, as expressões... E não temos dúvidas de onde vivem as pessoas que são mais felizes...

Esta foi a primeira impressão que me deixou este livro de SEBASTIÃO SALGADO.
Estarei a ser faccioso? A seguir (ou a deixar-me conduzir por) uma determinada ideologia? A que nos diz, por exemplo, que o homem branco, só tem lá andado a destruir aquele continente? Talvez... Mas... É mentira?


João Paulo Barrinha

(*) Sobre o livro "África" e outros assuntos... ENTREVISTA COM SEBASTIÃO SALGADO


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